Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
Em “Motivo”, poema lírico de natureza metalinguística, as estrofes homogêneas e as rimas regulares demonstram a presença da tradição no contexto moderno, enquanto a musicalidade, que vem da constância rítmica, constitui forte elemento de procedência simbolista.