Manuel Bandeira
A capacidade de ver as cenas prosaicas, as situações mais banais do dia a dia filtradas por lentes líricas e de recriá-las poeticamente por meio de uma linguagem simples são as características mais marcantes da poesia de Bandeira, que, por sua história pessoal, empresta aos poemas que escreve uma forte consciência da precariedade da vida.
Momento num café
Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.
BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996.