Literatura Portuguesa

Fanatismo – Florbela Espanca

Florbela Espanca (1894 – 1930), batizada com o nome de Flor Bela de Alma da Conceição, foi uma poetisa portuguesa. A sua vida de trinta e seis anos foi cheia de sofrimentos íntimos que a autora soube transformar em poesia da mais alta qualidade.

Florbela não se ligou claramente a um movimento literário. Alheia ao Modernismo, seguiu a linha do poeta Antônio Nobre. A técnica do soneto, que a celebrizou, teve influência de Antero de Quental e, mais longinquamente, de Camões. Florbela Espanca foi uma mulher à frente de seu tempo e uma grande figura feminina das primeiras décadas da Literatura Portuguesa do século XX.

 

Fanatismo

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida

Meus olhos andam cegos de te ver!

Não és sequer razão de meu viver,

Pois que tu és já toda a minha vida!

 

Não vejo nada assim enlouquecida…

Passo no mundo, meu Amor, a ler

No misterioso livro do teu ser

A mesma história tantas vezes lida!

 

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”

Quando me dizem isto, toda a graça

Duma boca divina fala em mim!

 

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:

“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,

Que tu és como Deus: princípio e fim!…”

(Florbela Espanca)

Literatura Portuguesa

Romantismo em Portugal

Principais autores do Romantismo em Portugal

PRIMEIRA GERAÇÃO: composta por autores que abordaram temas ligados à cultura e à história portuguesas.

Almeida Garret (1799-1854): pioneiro do Romantismo português, privilegiou a cultura de seu país. É autor do poema Camões (1825), marco inaugural do Romantismo em Portugal. Escreveu Viagens na Minha Terra (1846), romance de viagem pelo interior de Portugal; Folhas Caídas (1853) e Flores sem Fruto (1844), que reúnem os melhores poemas do autor.

Alexandre Herculano (1810-1877): historiador, ambientou romances e contos na Idade Média. É autor de Eurico, o Presbítero (1844), romance sobre o celibato clerical.

SEGUNDA GERAÇÃO: caracteriza-se pelo aprofundamento das propostas românticas, como a liberdade da imaginação, a visão egocêntrica do mundo, a melancolia e a obsessão com a morte. O período ficou conhecido como Ultrarromantismo, que também influenciou os autores brasileiros.

Camilo Castelo Branco: em cerca de 100 obras, destacando-se a prosa, narra histórias de paixão e tragédia. Amor de Perdição conta a história de Simão e Teresa, jovens apaixonados de famílias inimigas. Em Amor de Salvação, um rico herdeiro, traído e infeliz, “salva-se” ao perceber o amor de uma prima.

TERCEIRA GERAÇÃO: Afastou-se dos excessos do Ultrarromantismo, moderando a dramaticidade das situações e sentimentos.

Julio Dinis: compõe retratos idealizados das famílias portuguesas. É autor de As Pupilas do Senhor Reitor. Nesse romance, lançado em formato de folhetim, em 1863, Margarida e Clara vivem conflitos amorosos.

Literatura Portuguesa

O Primo Basílio – Eça de Queirós

O Primo Basílio: uma crítica à burguesia portuguesa

Publicada em 1878, a obra O Primo Basílio tem como subtítulo Episódio da vida doméstica. Nela, Eça de Queirós volta o seu olhar crítico para o casamento como instituição representativa da hipocrisia burguesa. Bastante influenciado por Madame Bovary, de Gustave Flaubert, Eça tem em Emma Bovary o modelo para a construção de Luísa, personagem frágil e sonhadora.

No romance, acompanhamos a história de Luísa, jovem educada segundo os princípios românticos, que, estando casada com o engenheiro Jorge, deixa-se seduzir pelo primo, Basílio de Brito, que volta a Portugal durante uma viagem de Jorge. Chantageada pela criada Juliana, que intercepta cartas trocadas pelos amantes, Luísa vê seus sonhos de viver um romance desmoronarem. No final, a protagonista morre após uma longa enfermidade causada pelo sentimento de culpa por ter traído o marido.

Nessa obra, Eça de Queirós, que já criticara a província em O Crime do Padre Amaro, dirige sua crítica à burguesia lisboeta, com seus tipos característicos, seu pseudomoralismo, sua frustração familiar e o inevitável adultério.

O próprio autor afirma, em carta a Teófilo Braga, outro escritor do Realismo português: “A minha ambição seria pintar a sociedade portuguesa […] e mostrar-lhes, como num espelho, que triste país eles formam […]”

Literatura Portuguesa

Presságio – Fernando Pessoa

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…

(Fernando Pessoa)