Língua Portuguesa

Intertexto e interdiscurso

Meus oito anos

Oh! Que saudades que eu tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!

Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

À sombra das bananeiras,

Debaixo dos laranjais!

[…]

(Casimiro de Abreu)

 

Meus oito anos

Oh que saudades que eu tenho
Da aurora de minha vida
Das horas
De minha infância
Que os anos não trazem mais
Naquele quintal de terra
Da Rua de Santo Antônio
Debaixo da bananeira
Sem nenhum laranjais.

[…]

(Oswald de Andrade)

 

O primeiro poema foi escrito no século XIX por Casimiro de Abreu, poeta romântico. O segundo foi escrito por Oswald de Andrade, escritor modernista do século XX.

Em seu poema, Oswald de Andrade cita explicitamente o poema de Casimiro de Abreu. Quando um texto cita outro, dizemos que entre eles existe intertextualidade.

Mas, o texto de Oswald não é uma mera citação do texto de Casimiro. Com seu poema, Oswald pretendia dialogar com o poeta romântico. Quando há um diálogo entre os dois discursos, dizemos que, além de intertextualidade, existe entre eles também interdiscursividade.

Toda relação interdiscursiva é também uma relação intertextual. Contudo, a interdiscursividade é mais ampla, pois faz referência não apenas a um texto ou a partes dele, mas também à ideologia nele existente.

Literatura Brasileira

Meus oito anos – Casimiro de Abreu

Casimiro José Marques de Abreu (1839-1860) é um dos poetas mais conhecidos do Romantismo brasileiro. Sua obra poética está reunida em um volume intitulado “As primaveras”, de 1859. Seu poema mais notório é “Meus oito anos”.

Meus oito anos, declamado pelo ator Paulo Autran.

Meus oito anos

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
– Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor!

Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberto o peito,
– Pés descalços, braços nus –
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo,
E despertava a cantar!

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
– Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!