Literatura Brasileira

Poemas – Cecília Meireles

Revista Prosa, Verso e Arte

Poemas de Cecília Meireles

Literatura Brasileira

Retrato – Cecília Meireles

Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

No poema, Cecília Meireles aborda o tema da transitoriedade da vida. Espelho é uma metáfora para lugar, momento; e face é uma metáfora para vida, juventude.

Literatura Brasileira

Das palavras aéreas – Cecília Meireles

Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Ai, palavras, ai, palavras,
sois de vento, ides no vento,
no vento que não retorna,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e se transforma!

Sois de vento, ides no vento,
e quedais, com sorte nova!
Ai, palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
Todo o sentido da vida
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois a audácia,
calúnia, fúria, derrota…

A liberdade das almas,
ai! com letras se elabora…
e dos venenos humanos
sois a mais fina retorta:
frágil, frágil como o vidro
e mais que o aço poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
pelo vosso impulso rodam…

Detrás de grossas paredes,
de leve, quem vos desfolha?
Pareceis de tênue seda,
sem peso de ação, nem de hora…
– e estais no bico das penas,
– e estais na tinta que as molha,
– e estais nas mãos dos juízes,
– e sois o ferro que se arrocha,
– e sois o barco para o exílio,
– e sois Moçambique e Angola!

Ai, palavras, ai palavras,
leis pela estrada afora,
erguendo asas muito incertas,
entre verdade e galhofa,
desejos do tempo inquieto,
promessas que o mundo sopra…

Ai, palavras, ai, palavras,
mirai-vos: que sois agora?

-Acusações, sentinelas,
bacamarte, algemas, escolta;
– o olho ardente da perfídia,
a velar na noite morta;
– a umidade dos presídios,
– a solidão pavorosa;
– o duro ferro de perguntas,
com sangue em cada resposta;
– e a sentença que caminha,
– e a esperança que não volta,
– e o coração que vacila,
– e o castigo que galopa…

Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Perdão podíeis ter sido!
– sois madeira que se corta,
– sois vinte degraus de escada,
– sois um pedaço de corda…
– Sois povo pelas janelas,
cortejo, bandeira, tropa…

Ai, palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
Éreis um sopro na aragem…
– sois um homem que se enforca!

(Cecília Meireles – Do Romanceiro da Inconfidência)

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Motivo – Cecília Meireles

Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.

Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

— não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

— mais nada.

Em “Motivo”, poema lírico de natureza metalinguística, as estrofes homogêneas e as rimas regulares demonstram a presença da tradição no contexto moderno, enquanto a musicalidade, que vem da constância rítmica, constitui forte elemento de procedência simbolista.