Literatura Brasileira

Momento num café – Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

A capacidade de ver as cenas prosaicas, as situações mais banais do dia a dia filtradas por lentes líricas e de recriá-las poeticamente por meio de uma linguagem simples são as características mais marcantes da poesia de Bandeira, que, por sua história pessoal, empresta aos poemas que escreve uma forte consciência da precariedade da vida.

Momento num café

Quando o enterro passou

Os homens que se achavam no café

Tiraram o chapéu maquinalmente

Saudavam o morto distraídos

Estavam todos voltados para a vida

Absortos na vida

Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado

Olhando o esquife longamente

Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade

Que a vida é traição

E saudava a matéria que passava

Liberta para sempre da alma extinta.

BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996.

Literatura Brasileira

Poética – Manuel Bandeira

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar
com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de
agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

(Manuel Bandeira)

Literatura Brasileira

Pronominais – Oswald de Andrade

Pronominais

Dê-me um cigarro

Diz a gramática

Do professor e do aluno

E do mulato sabido

Mas o bom negro e o bom branco

Da Nação Brasileira

Dizem todos os dias

Deixa disso camarada

Me dá um cigarro

(Oswald de Andrade)

A comparação entre o primeiro e o último versos exemplifica uma das muitas diferenças existentes entre a língua que a gramática normativa considera correta e a língua efetivamente falada pela maioria das pessoas. Para se comunicar, o falante não precisa dominar as regras da gramática escolar. Ele utiliza, mesmo sem ter consciência disso, uma gramática natural, que admite a construção “me dá um cigarro”, mas não admite, por exemplo, a construção “me cigarro um dá”. Ou seja, essa gramática natural também possui um sistema de regras que formam a estrutura da língua, e que os falantes interiorizam ouvindo e falando.

Literatura Brasileira

Confidência do Itabirano – Carlos Drummond de Andrade

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente, nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa…

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

(Carlos Drummond de Andrade)

Esse poema é um autorretrato que apresenta alguns traços da personalidade do poeta. Drummond indica logo na primeira estrofe as percentagens de ferro nas calçadas de Itabira e nas almas de seus habitantes. A alma do itabirano, apenas um pouco menos dura do que as calçadas, tem oitenta por cento de ferro. A foto é uma figuração do passado que se torna presente e cotidiana em sua moldura. Itabira perde-se no passado, torna-se uma imagem vazia, apenas uma foto, que todavia conserva seu poder afetivo, pois ainda dói.