Língua Portuguesa

Intertexto e interdiscurso

Meus oito anos

Oh! Que saudades que eu tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!

Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

À sombra das bananeiras,

Debaixo dos laranjais!

[…]

(Casimiro de Abreu)

 

Meus oito anos

Oh que saudades que eu tenho
Da aurora de minha vida
Das horas
De minha infância
Que os anos não trazem mais
Naquele quintal de terra
Da Rua de Santo Antônio
Debaixo da bananeira
Sem nenhum laranjais.

[…]

(Oswald de Andrade)

 

O primeiro poema foi escrito no século XIX por Casimiro de Abreu, poeta romântico. O segundo foi escrito por Oswald de Andrade, escritor modernista do século XX.

Em seu poema, Oswald de Andrade cita explicitamente o poema de Casimiro de Abreu. Quando um texto cita outro, dizemos que entre eles existe intertextualidade.

Mas, o texto de Oswald não é uma mera citação do texto de Casimiro. Com seu poema, Oswald pretendia dialogar com o poeta romântico. Quando há um diálogo entre os dois discursos, dizemos que, além de intertextualidade, existe entre eles também interdiscursividade.

Toda relação interdiscursiva é também uma relação intertextual. Contudo, a interdiscursividade é mais ampla, pois faz referência não apenas a um texto ou a partes dele, mas também à ideologia nele existente.

Literatura Brasileira

Pronominais – Oswald de Andrade

Pronominais

Dê-me um cigarro

Diz a gramática

Do professor e do aluno

E do mulato sabido

Mas o bom negro e o bom branco

Da Nação Brasileira

Dizem todos os dias

Deixa disso camarada

Me dá um cigarro

(Oswald de Andrade)

A comparação entre o primeiro e o último versos exemplifica uma das muitas diferenças existentes entre a língua que a gramática normativa considera correta e a língua efetivamente falada pela maioria das pessoas. Para se comunicar, o falante não precisa dominar as regras da gramática escolar. Ele utiliza, mesmo sem ter consciência disso, uma gramática natural, que admite a construção “me dá um cigarro”, mas não admite, por exemplo, a construção “me cigarro um dá”. Ou seja, essa gramática natural também possui um sistema de regras que formam a estrutura da língua, e que os falantes interiorizam ouvindo e falando.