O maranhense Ferreira Gullar, embora tenha iniciado sua produção literária no Concretismo, logo o abandonou para fundar o Neoconcretismo. No início dos anos 1960, desistiu dos movimentos de vanguarda e passou a dedicar-se à poesia engajada.
Não há vagas
O preço do feijão
não cabe no poema.
O preço do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão.
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
– porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,
não fede
nem cheira.
GULLAR, Ferreira. Toda poesia.
Rio de Janeiro: José Olympio, 1999.
O texto nos mostra o incômodo do poeta com a impossibilidade de lidar com a “vida real” em sua poesia. O eu lírico deixa claro que a poesia não está preparada para as coisas concretas, por estar isolada em um mundo de imagens idealizadas.