Literatura Portuguesa

Fanatismo – Florbela Espanca

Florbela Espanca (1894 – 1930), batizada com o nome de Flor Bela de Alma da Conceição, foi uma poetisa portuguesa. A sua vida de trinta e seis anos foi cheia de sofrimentos íntimos que a autora soube transformar em poesia da mais alta qualidade.

Florbela não se ligou claramente a um movimento literário. Alheia ao Modernismo, seguiu a linha do poeta Antônio Nobre. A técnica do soneto, que a celebrizou, teve influência de Antero de Quental e, mais longinquamente, de Camões. Florbela Espanca foi uma mulher à frente de seu tempo e uma grande figura feminina das primeiras décadas da Literatura Portuguesa do século XX.

 

Fanatismo

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida

Meus olhos andam cegos de te ver!

Não és sequer razão de meu viver,

Pois que tu és já toda a minha vida!

 

Não vejo nada assim enlouquecida…

Passo no mundo, meu Amor, a ler

No misterioso livro do teu ser

A mesma história tantas vezes lida!

 

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”

Quando me dizem isto, toda a graça

Duma boca divina fala em mim!

 

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:

“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,

Que tu és como Deus: princípio e fim!…”

(Florbela Espanca)

Teoria Literária

Sílaba poética (ou métrica)

Métrica é a medida de um verso, definida pelo número de sílabas poéticas (ou métricas) que ele possui.

A sílaba poética nem sempre corresponde a uma sílaba gramatical. Na divisão (ou contagem) das sílabas poéticas de um verso, considera-se as emissões de voz do verso como um todo. Além disso, conta-se apenas até a última sílaba tônica do verso. Essa contagem é chamada de escansão.

Observe a escansão destes versos do poema “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias.

Mi/nha/ ter/ra/ tem/ pal/mei/ras,/             ( 8 sílabas gramaticais )

Mi/nha/ te/rra/ tem/ pal/mei/ras,              ( 7 sílabas poéticas )

On/de/ can/ta/ o/ Sa/bi/á;/                         ( 8 sílabas gramaticais )

On/de/ can/ta o/ Sa/bi/á;/                          ( 7 sílabas poéticas )

As/ a/ves/ que/ a/qui/ gor/jei/am,/            ( 9 sílabas gramaticais )

A/s a/ves/ que a/qui/ gor/jei/am,              ( 7 sílabas poéticas )

Não/ gor/jei/am/ co/mo/ lá./                     ( 7 sílabas gramaticais )

Não/ gor/jei/am/ co/mo/ ./                     ( 7 sílabas poéticas )

No último verso, há correspondência entre sílaba gramatical e sílaba poética.

Os versos do poema de Gonçalves Dias são heptassílabos ou versos de redondilha maior (sete sílabas poéticas).

Observe a escansão destes versos do “Soneto do Maior Amor”, de Vinícius de Moraes.

Mai/o/r a/mor/ nem/ mai/s es/tra/nho e/xis/te
Que o/ meu/, que/ não/ so/sse/ga a/coi/sa a/ma/da
E/ quan/do a/sen/te a/le/gre/, fi/ca/ tris/te
E/ se a/ vê/ des/con/ten/te/, dá/ ri/sa/da.

Os versos do soneto de Vinícius de Moraes são decassílabos (dez sílabas poéticas).

Teoria Literária

O que é um soneto?

Soneto é um poema composto de catorze versos, divididos em dois quartetos (duas estrofes com quatro versos) e dois tercetos (duas estrofes com três versos).

O soneto possui versos metrificados e rimados e, classicamente, esses versos são decassílabos (com dez sílabas métricas) ou alexandrinos (com doze sílabas métricas).

No século XX, apesar de a literatura moderna ter rompido com os modelos clássicos, alguns poetas cultivaram o soneto, como Guilherme de Almeida, Manuel Bandeira e Vinícius de Moraes.

Observe a estrofe do Soneto do Maior Amor, de Vinícius de Moraes. Todos os versos são decassílabos (com dez sílabas métricas).

Mai/o/r a/mor/ nem/ mai/s es/tra/nho e/xis/te

Que o/ meu/, que/ não/ so/sse/ga a/coi/sa a/ma/da

E/ quan/do a/sen/te a/le/gre/, fi/ca/ tris/te

E/ se a/ vê/ des/con/ten/te/, dá/ ri/sa/da.

A sílaba métrica (ou poética) nem sempre corresponde a uma sílaba gramatical. Na divisão (ou contagem) das sílabas poéticas de um verso, considera-se as emissões de voz do verso como um todo. Além disso, conta-se apenas até a última sílaba tônica do verso. Essa contagem é chamada de escansão.

Literatura Brasileira

Soneto de Fidelidade – Vinícius de Moraes

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

(Vinícius de Moraes)

No poema, o conflito da experiência amorosa, que se deseja eterna mas que se sabe perecível, resolve-se através de um novo prisma: o que conta no amor não é sua duração no tempo, já que a “chama” se apaga, mas sua intensidade. Fidelidade torna-se, então, capacidade de entrega total ao ser amado e ao sentimento do amor, no momento “infinito” em que acontece.