Literatura Brasileira

Língua Portuguesa – Olavo Bilac

Língua Portuguesa

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”,
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

(Olavo Bilac)
Literatura Brasileira

Lima Barreto

Afonso Henriques de Lima Barreto era mulato, num país recém-saído da escravidão. A vida toda lutou contra o preconceito e jamais se curvou diante dos poderosos.

Sua obra mais famosa é Triste Fim de Policarpo Quaresma, publicada, inicialmente, no Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, como romance de folhetim, em 1911. Cinco anos mais tarde, em 1916, viraria livro.

Policarpo Quaresma é um nacionalista. Sonha com uma nação que integre todos os seus costumes e pessoas, sem distinção. Policarpo é o Dom Quixote brasileiro. A visão apaixonada do Brasil impede que enxergue as grandes mazelas da nação. Há um descompasso entre o que acredita que seja e o que de fato é. No fim do livro, Policarpo reconhece que a sua vida era um encadeamento de decepções e que a pátria que quisera ter era um mito, um fantasma criado por ele no silêncio do seu gabinete.

O fim de Policarpo Quaresma decorrerá dessa sua visão ingênua e de sua ação, também ingênua, em nome de representantes da pátria. Ele será preso e condenado à morte por quem defendera e lutara.

Literatura Brasileira

Momento num café – Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

A capacidade de ver as cenas prosaicas, as situações mais banais do dia a dia filtradas por lentes líricas e de recriá-las poeticamente por meio de uma linguagem simples são as características mais marcantes da poesia de Bandeira, que, por sua história pessoal, empresta aos poemas que escreve uma forte consciência da precariedade da vida.

Momento num café

Quando o enterro passou

Os homens que se achavam no café

Tiraram o chapéu maquinalmente

Saudavam o morto distraídos

Estavam todos voltados para a vida

Absortos na vida

Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado

Olhando o esquife longamente

Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade

Que a vida é traição

E saudava a matéria que passava

Liberta para sempre da alma extinta.

BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996.

Literatura Brasileira

Poética – Manuel Bandeira

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar
com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de
agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

(Manuel Bandeira)