Literatura Brasileira

Não há vagas – Ferreira Gullar

O maranhense Ferreira Gullar, embora tenha iniciado sua produção literária no Concretismo, logo o abandonou para fundar o Neoconcretismo. No início dos anos 1960, desistiu dos movimentos de vanguarda e passou a dedicar-se à poesia engajada.

Não há vagas

O preço do feijão

não cabe no poema.

O preço do arroz

não cabe no poema.

Não cabem no poema o gás

a luz o telefone

a sonegação

do leite

da carne

do açúcar

do pão.

O funcionário público

não cabe no poema

com seu salário de fome

sua vida fechada

em arquivos.

Como não cabe no poema

o operário

que esmerila seu dia de aço

e carvão

nas oficinas escuras

– porque o poema, senhores,

está fechado:

“não há vagas”

Só cabe no poema

o homem sem estômago

a mulher de nuvens

a fruta sem preço

O poema, senhores,

não fede

nem cheira.

GULLAR, Ferreira. Toda poesia.

Rio de Janeiro: José Olympio, 1999.

O texto nos mostra o incômodo do poeta com a impossibilidade de lidar com a “vida real” em sua poesia. O eu lírico deixa claro que a poesia não está preparada para as coisas concretas, por estar isolada em um mundo de imagens idealizadas.

Literatura Brasileira

Pronominais – Oswald de Andrade

Pronominais

Dê-me um cigarro

Diz a gramática

Do professor e do aluno

E do mulato sabido

Mas o bom negro e o bom branco

Da Nação Brasileira

Dizem todos os dias

Deixa disso camarada

Me dá um cigarro

(Oswald de Andrade)

A comparação entre o primeiro e o último versos exemplifica uma das muitas diferenças existentes entre a língua que a gramática normativa considera correta e a língua efetivamente falada pela maioria das pessoas. Para se comunicar, o falante não precisa dominar as regras da gramática escolar. Ele utiliza, mesmo sem ter consciência disso, uma gramática natural, que admite a construção “me dá um cigarro”, mas não admite, por exemplo, a construção “me cigarro um dá”. Ou seja, essa gramática natural também possui um sistema de regras que formam a estrutura da língua, e que os falantes interiorizam ouvindo e falando.

Literatura Brasileira

Confidência do Itabirano – Carlos Drummond de Andrade

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente, nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa…

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

(Carlos Drummond de Andrade)

Esse poema é um autorretrato que apresenta alguns traços da personalidade do poeta. Drummond indica logo na primeira estrofe as percentagens de ferro nas calçadas de Itabira e nas almas de seus habitantes. A alma do itabirano, apenas um pouco menos dura do que as calçadas, tem oitenta por cento de ferro. A foto é uma figuração do passado que se torna presente e cotidiana em sua moldura. Itabira perde-se no passado, torna-se uma imagem vazia, apenas uma foto, que todavia conserva seu poder afetivo, pois ainda dói.

Literatura Brasileira

Motivo – Cecília Meireles

Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.

Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

— não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

— mais nada.

Em “Motivo”, poema lírico de natureza metalinguística, as estrofes homogêneas e as rimas regulares demonstram a presença da tradição no contexto moderno, enquanto a musicalidade, que vem da constância rítmica, constitui forte elemento de procedência simbolista.