Literatura Brasileira

Vou-me embora pra Pasárgada – Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

(Manuel Bandeira)

Esse poema-utopia é uma transposição poética de um desejo e uma espécie de síntese de toda a obra de Bandeira. Pasárgada é uma metáfora para um espaço imaginário, uma cidade construída para abrigar os desejos do poeta.

Literatura Brasileira

No meio do caminho – Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

(Carlos Drummond de Andrade)

Espécie de enigma cuja poesia maior reside paradoxalmente em seu caráter antipoético, antilírico, de acordo com a lírica convencional.

“No meio do caminho” é um dos grandes marcos da temática do impasse homem-mundo. Com ele se encerra a fase do “coração mais vasto que o mundo”.

O poeta parte ao encontro do mundo real, resolvido a enfrentar a “pedra no meio do caminho”.

Literatura Portuguesa

Mar portuguez – Fernando Pessoa

 Mar portuguez

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão resaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,
Mas nelle é que espelhou o céu.

(Fernando Pessoa)

 

Mar portuguez possui versos alternadamente de dez e oito sílabas poéticas, com rimas emparelhadas. As duas estrofes, de seis versos, exibem arcaísmos gráficos (resaram, quere, abysmo, nelle), recurso utilizado pelo autor, como forma de remissão a um passado longínquo.

Literatura Portuguesa

Soneto Camoniano – Luís Vaz de Camões

Amor é fogo que arde sem se ver;

é ferida que dói e não se sente;

é um contentamento descontente;

é dor que desatina sem doer.

 

É um não querer mais que bem querer;

é um andar solitário entre a gente;

é nunca contentar-se de contente;

é um cuidar que ganha em se perder.

 

É querer estar preso por vontade;

é servir a quem vence, o vencedor;

é ter com quem nos mata, lealdade.

 

Mas como causar pode seu favor

nos corações humanos amizade,

se tão contrário a si é o mesmo Amor?

(Luís Vaz de Camões)

 

Na primeira estrofe, a ambivalência do amor está demonstrada na ardência do corpo e na transcendência da alma. A utilização de metáforas denuncia a contradição entre o amor físico: “fogo que arde”, “ferida que dói”, e o amor espiritual: “sem se ver” e “não se sente”. Nas três primeiras estrofes, o poeta esforça-se para conceituar a natureza do amor, que, para ele, é contraditório. Na última estrofe, ele chega a conclusão sobre os efeitos desse sentimento: como pode um sentimento tão contraditório levar conforto aos corações humanos?